Fences

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Há alguns anos, o Youtube mostrou uma peça que estava roubando toda a atenção da Broadway. Denzel Washington revisitava Fences, a peça de August Wilson vencedora de diversos prêmios nos anos 80 e que retratava, assim como várias outras de suas produções, a realidade do conflito racial nos Estados Unidos dos anos 50, descrevendo o drama de um casal e seus filhos. Uma vez anunciada a versão para cinema do revival, minha curiosidade estava automaticamente desperta – Washington também iria dirigir a adaptação. Manobra segura ou arriscada? Paguei pra ver, e estive longe de me arrepender.

Esperei para o filme algo típico do teatro filmado dos anos 50 – sets fechados, diálogos extensos e closes direcionados aos atores. Nada de errado aí, até hoje não me canso de ver O Leão no Inverno (1968), Gata em Teto de Zinco Quente (1958) ou outros da época. Estamos, no entanto, em 2017 – o ritmo e o estilo já não são mais os mesmos. Feliz fiquei ao ver, no final das contas, que a produção conseguiu aliar antigo e atual. A veia teatral estava ali, pulsante o tempo inteiro (para mim, ponto positivo, para outros o exato oposto). Aqui, no entanto, o jogo de câmera é diferenciado. Enquanto na peça quase sentia o suor de Troy colando na tela ao contar suas histórias, no filme vemos as mesmas angústias – mas com um ar de distanciamento. Aqui, a raiva de Troy tem uma aura agitada, mas ao mesmo tempo sombria e reclusa.

Falando em Troy, o pai de família que trabalha como lixeiro e amargura não ter perseguido a carreira no beisebol, vemos um inspirado Denzel Washington desempenhando o que muitos dizem ser seu lugar comum – para mim, uma aula de atuação. Violento, depressivo, apaixonado, amigável, tudo ao mesmo tempo em um único espetáculo. A cada virada que a história segue, uma nova faceta é apresentada, te convidando a entender a vida e a mente do cidadão americano aqui mostrado. O marketing do filme engana ao vender o casal central sempre em destaque, criando a expectativa de um drama sobre romance: Denzel ataca, afaga e convive com tudo e todos exibidos em Fences.

No que pode ser considerado o melhor momento de sua carreira, Viola Davis brilha como Rose, a esposa de Troy e matriarca do frágil clã. Longe de ser sua melhor atuação (vide Como Defender um Assassino, Histórias Cruzadas, Dúvida, entre outros), ainda assim Viola comove com a resignada mulher de um homem rancoroso, mãe de filhos em conflito e paciente com um cunhado atormentado. Para o caráter secundário e o tempo reduzido de roteiro que lhe é dado, suas indicações e subsequentes vitórias nas principais premiações na categoria coadjuvante são indubitavelmente merecedoras do mérito.

Como já era esperado, o ponto alto do longa é seu quadro de atuações. Para além do casal principal, destaque para o problemático irmão de Troy, Gabe (Mykelti Williamson) e o inseparável amigo da família, Jim (Stephen Henderson). Ainda resquício de sua similaridade com o teatro, o elenco é pequeno e escolhido a dedo, com vários membros da peça do revival de 2010. Talvez por isso o entrosamento visto em cena fica tão evidente ao espectador, em especial nas cenas entre Rose e Troy.

Denzel Washington como Troy e Stephen Henderson como Jim em cena de Fences
Para suportar tal êxito nas atuações, o roteiro foi adaptado para o cinema pelo próprio August Wilson. A carga de diálogo é praticamente incessante, sem no entanto chegar a um ritmo frenético. É difícil até discutir a qualidade da escrita de Wilson – Fences enquanto peça recebeu ambos prêmios Pulitzer e Tony à época de seus lançamentos. Para o espectador que desconhece a história, fica a emoção ainda nova de se sensibilizar com sua descrição magnífica dos Estados Unidos de sessenta anos atrás pelo olhar de uma família de cor enfrentando dificuldades de diversas esferas (destaque para as ótimas cenas com Troy e seu filho Cory sobre oportunidades para atletas negros).

Dado que o longa tem uma duração um pouco extendida para os padrões atuais (30 dos 130 minutos poderiam ter sido retirados com reduzido esforço), fica a ressalva de uma possível melhoria que poderia ter sido feita a nível de edição, priorizando trechos e tempos de cena. Também como símbolo característico dos palcos, a trilha sonora é escassa para padrões cinematográficos – em alguns (felizmente poucos) casos, sentimos falta. No que se diz respeito a Denzel em seu papel de diretor, nada de muito marcante a ser descrito. Preferiu se ater ao seguro, ao que sabia que funcionaria, e nisso seguiu sem maiores erros. Maior coragem, quem sabia, lhe traria mais linhas de discussão e subsequente reconhecimento.

Fences, assim, cumpre o que promete. Sua profunda marca teatral lhe diferencia de outras diversos dramas familiares com temática racial. Seguro e ao mesmo tempo arriscado, ouso dizer que suas peculiaridades lhe trazem um caráter “ame ou odeie” – não temos efeitos especiais, mas temos Denzel e Viola; é longo e cheio de diálogos, mas você viu que diálogos? A história já consagrada aqui chega como quase desconhecida para o grande público cinematográfico. Por seu intenso (e merecido) reconhecimento na tão aguardada por nós Award Season, assunto na mesa da família vira. Não sei em que lado você estará, mas eu estou no do que bate na mesa e manda ir assistir – a família Maxson tem muitas reflexões a trazer para todos nós.

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La La Land – Cantando Estações

228823.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxDepois dos dez minutos iniciais da sequência de aberta de La La Land – Cantando Estações, a vontade que dá, imediatamente, é de sair correndo da sala do cinema. O propósito se justifica pelo medo de que as quase duas horas de projeção que ainda restam não estejam à altura da genialidade do início do filme. Se quer uma dica: não sucumba.

A cena em questão é um plano-sequência bem complexo, no qual as pessoas abandonam seus carros em um engarrafamento para cantarem. Cantarem? Sim, depois de comandar o tenso – e brilhante – Whiplash – Em Busca da Perfeição, Damien Chazelle resolveu investir seus esforços em um gênero considerado quase datado hoje em dia.

Quando você se dá por satisfeito (e olha que só se passaram dez minutos), entra em cena Emma Stone. A partir daí, você tem três minutos para se apaixonar – ou pedir o seu dinheiro de volta. No longa, ela é Mia, a atendente de uma cafeteria localizada no perímetro de um grande estúdio, aspirante a atriz que, apesar do talento, só leva pau nas audições.

O caminho dela vai se cruzar com o de Sebastian (Ryan Gosling), um pianista igualmente hábil, tal qual malsucedido, que sonha em perpetuar o jazz – vertente da música que combina os instrumentos de forma “conflituosa e complementar, mas que está quase morrendo”, provoca o personagem, numa alusão que pode ser facilmente aplicada ao musical como gênero cinematográfico.

Escrito pelo mesmo Damien, o roteiro do filme puxa pela mão esses dois tipos arquetípicos e os joga na pista de dança que tem Hollywood como cenário. Ao mesmo tempo em que o colorido da fotografia e do figurino possam passar a impressão de que a história se passa nos anos 1950/ 1960, os carros e celulares lembram que é hoje que Stone e Gosling estão dançando na sua frente. Mais do que uma homenagem (há várias) à “Era de Ouro” dos musicais, a nostalgia é apenas trampolim. E o que o realizador faz é revigorar o gênero.

A montagem dinâmica se dá sob uma iluminação exagerada (quase neon), para lá de poética – é possível notar algumas pinturas de Edward Hopper (1882 a 1967) espalhadas por aí. E cada gesto dos atores, apesar de milimetricamente calculado, soa natural e resulta simbólico. Chazelle usa todos (to-dos) os elementos técnicos do cinema a favor de sua história.

A respeito da tal química entre os atores protagonistas (já testada e aprovada em Amor a Toda Prova), aqui, ela é ainda mais efusiva. Emma e Ryan não existem um sem o outro no filme – embora o papel dela seja ainda mais charmoso – e representam com uma apaixonante verossimilhança as mais variadas etapas do amor, da provocação quase adolescente (e irresistivelmente deliciosa) do primeiro contato, àquele momento em que, de fato, um não vive sem o outro.

Nesse ponto, caberia a pergunta: “Ué, mas cadê o conflito aí?” E é aí que Damien Chazelle surpreende – mais uma vez – e redireciona a trama para um lugar ainda mais conflituoso e complementar. Romântico, exagerado, divertido, La La Land – Cantando Estações é um filme obrigatório.

Filme visto no 41º Toronto International Film Festival, em setembro de 2016.

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Estrelas Além do Tempo

445513.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx1961. Em plena Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética disputam a supremacia na corrida espacial ao mesmo tempo em que a sociedade norte-americana lida com uma profunda cisão racial, entre brancos e negros. Tal situação é refletida também na NASA, onde um grupo de funcionárias negras é obrigada a trabalhar a parte. É lá que estão Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), grandes amigas que, além de provar sua competência dia após dia, precisam lidar com o preconceito arraigado para que consigam ascender na hierarquia da NASA.

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Até o Último Homem

051251.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxÀ primeira vista, este filme parece combinar a estrutura típica do cinema de guerra com o mecanismo tradicional do cinema religioso. O protagonista representa uma fusão de ambos: Desmond Doss (Andrew Garfield) é ao mesmo tempo um jovem pacifista, temente a Deus, e um soldado destinado a salvar pessoas no campo de batalha da Segunda Guerra Mundial. Sua única condição: jamais tocar em uma arma, devido a traumas de infância. Como ser um pacifista em meio à guerra? Como lutar contra inimigos armados sem possuir instrumentos de defesa?

Desmond sublinha a contradição do heroísmo americano: por um lado, não tirar a vida de uma pessoa é percebido como virtude, por outro lado, tirar a vida de inimigos que nos atacam é considerado um ato de bravura. De que modo se concilia o mandamento “Não matarás” com o patriotismo guerreiro? Até o Último Homem fornece uma leitura didática, mas interessante, deste paradoxo. A primeira solução é retirar a humanidade do inimigo: os soldados mais sangrentos enxergam nos japoneses uma figura satânica, portanto digna de ser combatida com violência. A segunda é se isentar de culpa pelo alter ego de grupo: não existe problema matar se isso for praticado por todos, como uma ordem direta dos superiores. Os soldados não se sentem responsáveis por cumprirem o que se espera deles. Talvez por isso a decisão do personagem principal soe como ofensa tão grande: ele quebra o acordo tácito de que matar é algo defensável, contanto que todos os façam.

O drama questiona, portanto, a violência dos “homens de bem”, a incompatibilidade entre amar o próximo como a si mesmo e amar apenas o próximo, mas não o diferente. Este seria um debate relevante não apenas em tempo de guerras oficiais, mas também em momentos de proliferação de crimes homofóbicos, chacinas em prisões, ladrões amarrados a postes etc. A lógica individualista permite que pessoas boas apliquem violência contra as ruins. Mas quem está autorizado a distinguir as primeiras das segundas? O prelúdio da barbárie social é sintetizado pela figura martirizada de Desmond. Andrew Garfield faz questão de interpretá-lo como um tipo quase autista, um novo Forrest Gump. Sua inaptidão social rivaliza apenas com sua ingenuidade e sua integridade durante o combate. Este é o homem disposto a ajudar qualquer um, mesmo os soldados que o maltratam e um inimigo ferido.

Felizmente, Até o Último Homem não defende a postura do protagonista como única possível. O diretor Mel Gibson sugere que a conduta do oficial pacifista possui seu espaço no confronto, porém não exclui a necessidade de figuras centralizadoras como o sargento Howell (Vince Vaughn) ou o corajoso soldado Smitty (Luke Bracey), que maneja uma arma como ninguém. No entanto, quando estes homens são feridos ou têm seus membros destroçados por uma granada, é Desmond quem corre para fazer torniquetes e aplicar morfina. Existe espaço para a paz em meio à guerra, sugere o filme, assim como existe espaço para a religião enquanto homens se matam selvagemente. A cena em que o batalhão espera pelo fim de uma prece antes de atacar o inimigo simboliza a ideia de que é possível matar e permanecer puro aos olhos de Deus.

O diretor faz questão de ressaltar que, embora a postura do jovem seja uma exceção, esta história realmente aconteceu. Como em muitas cinebiografias preocupadas em atestar sua veracidade, Até o Último Homem se conclui com trechos documentais, nos quais antigos membros do exército e o próprio Desmond reafirmam passagens que o espectador acaba de ver na ficção. Apesar de respeitar a veracidade de fatos, o cineasta não se preocupa em humanizar a guerra no que diz respeito à estética cinematográfica. Quando entram em cena as longuíssimas batalhas, Gibson se deleita com imagens de corpos dilacerados em câmera lenta, sangue jorrando por todos os lados e a luz amarelada das explosões contrastando com a paisagem cinzenta da colina Hacksaw.

Assim, Desmond pode até questionar o prazer belicista dos colegas, mas Gibson joga no time dos demais soldados. O espetáculo da violência é visível em cada fotograma deste projeto que não teme ser exagerado, mesmo kitsch em suas composições (os chroma keys no final são particularmente falsos, enquanto o banho redentor do herói coberto de sangue beira a telenovela), retratando o inimigo sem o mínimo sinal de humanidade ou personalidade. A direção reproduz a contradição de seu personagem principal, sem solucioná-la. Por um lado, o filme se orgulha de ser uma grande produção de guerra, repleta de cenas viris e impactantes, por outro lado, pretende ser piedosa e tolerante como pediriam as escrituras religiosas. Talvez o sincretismo entre o herói guerreiro e o herói cristão não se opere tão facilmente assim.

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A Chegada

Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade.

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Crítica:

Os Suspeitos, O Homem Duplicado, Sicario: Terra de Ninguém. Nos últimos três anos, o cineasta canadense Denis Villeneuve vinha trilhando uma carreira no suspense psicológico, com produções elogiadas tanto por público quanto pela crítica. É de se admirar – e louvar –, portanto, que tenha resolvido se arriscar em um gênero bem diferente daquele que o consagrou: a ficção científica. E o resultado é A Chegada, um filme bonito de se ver, mas um tanto difícil de se compreender.
A história se passa nos dias atuais, quando seres alienígenas descem à Terra em naves espalhadas por diversos pontos do planeta. Literalmente pairando sobre nossas cabeças, nós, os terráqueos, não sabemos quais as reais intenções da chegada dos visitantes. E, para ajudar na comunicação com os ET´s, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma especialista em linguística, é convocada, com a ajuda do matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner).
O roteiro de Eric Heisserer (Quando as Luzes se Apagam) se vale da fórmula clássica de conjurar uma história pessoal com um enredo mais abrangente. Assim, o filme se propõe a narrar um drama pessoal – uma perda na vida da protagonista – com a iminente extinção da vida na Terra – a ameaça, em si. É nesse contexto que são combinados conceitos como viagem no tempo e a falta de perspectiva derivada do luto. Se você pensou Interestelar, está no caminho certo.
Até o terço final do filme, a relação que Louise estabelece com os aliens soa confusa e carece de sentido – pelo menos, um sentido crível. A partir desse ponto, no entanto, por mais improvável que o enredo seja, ele começa a ser interligado, estruturado como um quebra-cabeças não linear, caminhando para um final, se não possível, redondo.
Por outro lado, apoiado na bela fotografia do experiente Bradford Young (O Ano Mais Violento), Villeneuve se mostra também um esteta da imagem, alternando com maestria planos e enquadramentos variados, de forma a evocar o trabalho mais recente do cultuado Terrence Malick. De encher os olhos.
Filme visto no 41º Toronto International Film Festival, em setembro de 2016.